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29/08/06 Só um filme B feito pra televisão

frio e chuva em são paulo. postishead nos headphones gigantescos que de quebra esquentam a orelha. dias assim são um deleite para minha mente. são dias em que se não fizesse nada da vida, estaria na minha casa no campo lendo textos antigos em folhas de papel amareladas. quisera eu. estou no centrão da cidade, relendo e-mails antigos. relembrando minha incapacidade de dizer as coisas claramente, e a clareza das entrelinhas, pelo menos lendo tudo agora a (meses / anos) de distância.

eu acho engraçado a minha capacidade de reinventar as coisas. como isso faz com que a frase que eu uso muito que diz “i used to be happier” muitas vezes seja errada. porque o passado conta com o remake, que é muito melhor que o dom do esquecimento. mesmo os piores momentos, os de tristeza ou dor, me recordo agora deles remodelados. Não tiro o sofrimento. acrescento poesia. o choro embaixo do chuveiro vem acompanhado de rimel escorrendo no rosto e sangue em mãos que nunca foram cortadas. Os lugares por onde eu passei cabisbaixa me vêm à memoria com pessoas na calçada, trajadas de preto e os homens tiravam seus chapeus, as mulheres mantinham seus veus, e todos abaixavam a cabeça solenemente em compaixão às minhas perturbações.

as felicidades, que já são boas por sí só, tem suas cores ajustadas até parecer um filme feliz do tim burton. e nos passeios de mão dada, eramos seguidos por ‘marching bands of manhattan’. o jantar de comida congelada, de tão agradável a conversa, parece-me agora ter sido servido na varanda de um belo restaurante e ser a obra de arte de um chef.

mas o presente, este que toca minha pele agora, que se posta diante meus olhos, é inegavél. pode ser mudado mas não maquiado, e mudar nem sempre é fácil. nem as felicidades são estonteantes, os risos não são como fogos de artificio em som e brilho e nem mesmo a dor doi o bastante para ser poética ou shakesperiana. talvez se eu tentasse.. talvez se eu mudasse. e ai talvez falha-se e ia doer como nunca doeu. ou desse certo e pronto. mas não… um dia hoje, a chuva, o cinza nas ruas, tudo vai ficar para trás, num filme anos 70 esperando ser remasterizado.

não se pode viver a vida aproveitando só o passado, eu sei. mas pode-se escrever palavras bonitas sobre ele e colorir um dia cinza.

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