Essa semana aconteceram coisas o suficiente para que me desse na telha de escrever o texto abaixo. No fundo é só porque soa bonito mesmo… na verdade eu acho que eu nunca deitei a cabeça no travesseiro duas noites seguidas com a sensação de que estava satisfeita.
Não sou a única com essa sensação. Agradavelmente, tem 2 escritores (um deles realmente célebre) que tem a mesma sensação (lembrando que eu bem queria ser uma): Joyce Maynard e J.D. Salinger. Andei lendo o livro "Abandonada no Campo de Centeio", de Maynard. É uma biografia de Joyce, com enfoque no único detalhe de sua vida que a difere de uma vida comum: seu relacionamento com Salinger.
Ela cresce com essa sensação de estar perdida no mundo, de não ter um lugar seu (à começar pelo fato dela ser meio-judia) e de nunca ter achado uma pessoa que parecesse entender suas ‘neuroses, psicoses, paranoias e afins’. Bom livro. Confirma a minha teoria que O Apanhador é auto-btiografico porque seria impossível escreve-lo se não fosse e também me fez acreditar que eu poderia te-lo escrito, já que eu tenho "Alma de Caulfield".
Segue o texto… reflexões sobre tempos em que eu não era menos perturbada mas que hoje me parecem mais facil:
"Eu acordava todos os nasceres do sol entre segunda e sexta. Saia sonolenta da cama para vestir uma camiseta qualquer e me aprontar. Antes de sair tomava leite e comia pão, sempre o mesmo pão de hamburguer, esquentado na chapa, com a margarina derretendo. Eu ia trabalhar, uma coisa que quase nunca me trazia novidade ou surpresa: talvez um cliente mais histérico, um acidente visto pela janela no caminho de volta, nunca nada demais. Eu jantava as batatas de forno, assistia filmes às terças, nos outros dias tomava banho, lia, dormia. Nos fins de semana passeava pela cidade pequena. Pelo prazer de tomar sol, pelo bate papo com os trabalhadores do comércio local, para arejar, andarilha nos 5 quarteirões que eram o centro, abastecida de milk shake. Depois da caminhada um cochilo, um banho, uma roupa melhor e a caminhada novamente, agora rumo a praça: em cidades pequenas nos fins de semana só há a praça da igreja. As mesmas pessoas, entretenimento previsível nas conversas sobre o tempo, o jogo, os conterrâneos. As vezes fazia sol de domingo e iamos de bicicletas até o grande lago. Sempre que ouço sobre lagos, seja o Ness ou o Michigan, não me vem à cabeça que um deles possa ser mais fabuloso que o lago em que iamos, tomavamos sol e comiamos bolo.
No lago tinha uma ponte. Eu me sentava na sua grade e via o sol se por, já que a volta de bicicleta garantia não passar frio. Podia ver o começo da noite, as primeiras estrelas… na madrugada elas serão as mais brilhantes. Mas eu voltava para casa e dormia, antes de vê-las. Semana após semana.
Mas um dia eu quis atravessar a ponte, ir para o outro lado, conhecer um novo mundo. Se o fizesse, sabia que seria para sempre, mas fui sem medo. E achei muitas coisas que pude incluir em listas de sonhos e planos, muito além de caminhadas com milkshakes, chefes e telefones. No começo quis ter certeza das coisas que queria. Depois passei a tentar conquista-las. Até hoje tento, muita coisa sem sucesso. Diariamente pensando e me frustrando. Chorando pelos cantos. As vezes tento trocar de ares para ver se me animo.
Agora quando posso, vou até o lago de carro, que já não é mais tão perto. Sento e olho a paisagem que conhecia apenas vendo do outro lado. Daqui, o lago parece muito maior, a ponte mais longa e as luzes à distância muito mais belas."
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